Como está o PIB do Brasil em 2016 em meio a crise

Publicado em

17 de
ago

Autor:

juancarloscunha
PIB arte 1ºtri2016 (Foto: Arte/G1)

A recessão brasileira se aprofundou neste início de ano. No primeiro trimestre de 2016, o Produto Interno Bruto (PIB) teve queda de 0,3% em comparação com os três meses anteriores, segundo dados divulgados nesta quarta-feira (1º) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Foi a quinta queda trimestral seguida do PIB brasileiro. Em 2015, a economia brasileira “encolheu” 3,8% – o pior resultado em 25 anos.
Apesar da contração, foi o melhor resultado nessa comparação desde o quarto trimestre de 2014, quando o PIB cresceu 0,2%. Mas o dado está longe de ser bom, avalia o IBGE.
“Melhora por enquanto não houve até porque mesmo na margem a variação é negativa, mas é muito menor do que havia antes porque meio que manteve o patamar de queda em relação ao trimestre anterior”, explicou Rebeca Palis, coordenadora de Contas Nacionais do IBGE.
“Não é melhora, porque não é melhora das taxas espalhadas. (…) A leitura é o que cenário é realmente muito parecido e continua aquele espalhamento de taxas negativas pela economia praticamente como um todo”, explicou Rebeca. “A conjuntura está bem parecida entre o primeiro trimestre e o quarto trimestre do ano anterior em termos de desempenho da economia. Não tem grandes mudanças não”.

 

 

 

 

Nos últimos quatro trimestres, a queda acumulada é de 4,7% frente aos quatro trimestres anteriores  – a maior desde o início da série histórica, iniciada em 1996.

Valores correntes
Em valores correntes, o PIB atingiu R$ 1,47 trilhão no primeiro trimestre de 2016. Na comparação com o mesmo período de 2015, houve queda de 5,4% no PIB – a oitava contração seguida da economia.

Nos últimos quatro trimestres, a queda acumulada é de 4,7% frente aos quatro trimestres anteriores.

Em valores correntes, o PIB acumulado nos quatro trimestres até março de 2016 somou R$ 5,94 trilhões, sendo R$ 5,088 trilhões referentes ao Valor Adicionado (VA) a preços básicos e R$ 855,1 bilhões aos Impostos sobre Produtos líquidos de Subsídios.

DEMANDA
Pela lado da demanda, os investimentos e o consumo das famílias foram destaque negativo:

o primeiro com queda de 2,7%, e o segundo, de 1,7%. As despesas do governo foram as únicas a registrar crescimento, de 1,1% frente aos três meses anteriores.

Na comparação com o mesmo período do ano anterior, todos os componentes da demanda tiveram queda pelo quinto trimestre seguido.

Claudia Dionísio apontou que a taxa acumulada de formação bruta de capital (investimento), que teve queda de 15,9%, importação, que caiu 18,3%, e consumo das famílias, recuo de 5,2%, também mostraram o resultado mais baixo desde o início da série.

De acordo com Rebeca Palais, o peso do consumo das famílias para o PIB, no entanto, é quase três vezes maior do que investimento, apesar da formação bruta de capital fixo ter mostrado maior recuo.

“Em quase todas as taxas, a influência pela produção e pela ótica da despesa, o consumo das famílias é realmente sempre o que mais determina o desempenho da economia. Então, é obvio que essa queda do investimento [18,3%] desse tamanho ajudou a puxar para baixo mais ainda”.

PIB consumo famílias - 1tri16 (Foto: Arte/G1)

Consumo das famílias
Na comparação com o primeiro trimestre de 2015, o consumo das famílias sofreu um “tombo” de 6,3%. O indicador, que foi um dos grandes impulsos para o PIB entre 2008 e 2011, completou oito trimestres de queda nessa comparação. No acumulado em quatro trimestres, o recuo vem desde o período de abril a junho do ano passado.

Segundo o IBGE, essa queda é explicada pela deterioração dos indicadores de emprego e renda, e pela deterioração nominal de 2,1% do saldo de operações de crédito do sistema financeiro nacional para as pessoas físicas, do aumento da Selic, que alcançou 14,3% ao ano no primeiro trimestre contra 12,1% ao ano no mesmo período de 2015, e pelo crescimento da inflação em 10% no primeiro trimestre de 2016, em comparação com o primeiro trimestre de 2015.


PIB gastos do governo - 1tri16 (Foto: Arte/G1)

Gastos do governo
O gastos de consumo do governo cresceram 1,1% frente ao trimestre anterior, mas mostraram queda de 1,4% na comparação com o período de janeiro a março de 2015.

“Estava havendo redução, que continuou no trimestre, mas ele foi menor do que o trimestre anterior em termos interanuais. E comparando com o trimestre imediatamente anterior, dá uma subida. O governo estava fazendo contenção da despesa de consumo e essa contenção continuou, mas foi menor do que tinha ocorrido no quarto trimestre do ano anterior que tinha sido a mais forte da série nos últimos tempos”, explicou Rebeca Palis, coordenadora de Contas Nacionais.

 


PIB investimentos - 1tri16 (Foto: Arte/G1)

Investimentos
Pelo décimo trimestre seguido, a formação bruta de capital fixo recuou na comparação com os três meses anteriores, numa queda de 2,7% – menos acentuada, no entanto, que a registrada nos períodos anteriores (veja no gráfico).

Frente aos primeiros três meses de 2015, foi a oitava queda seguida, de 17,5%. “Este recuo é justificado, principalmente, pela queda das importações e da produção interna de bens de capital sendo influenciado ainda pelo desempenho negativo da construção neste período”, diz o IBGE.

“Tanto a taxa de investimento quanto poupança já vendo tendo desaceleração aqui. No primeiro trimestre de 2014, a taxa de investimento era 20,9%, no primeiro de 2015, 19,5%, e no primeiro de 2016, 16,9%. Os investimentos vêm caindo já algum tempo, o investimento já cai há 8 trimestres seguidos. Então, com isso, vai refletir aqui, o pedaço dele representando no PIB vai ficando cada vez menor. A fatia dele é cada vez menor”, disse Claudia Dionísio. Para a queda da taxa de poupança, a gerente explicou o recuo com a queda da renda.


PRODUÇÂO
De acordo com os dados do IBGE, a indústria teve o pior resultado pela ótica da produção, com queda de 1,2% em relação aos três meses anteriores. A agropecuária recuou 0,3%, enquanto nos serviços a contração foi de 0,2%.

PIB indústria - 1tri16 (Foto: Arte/G1)

Indústria
Na indústria, a maior queda frente aos três meses anteriores se deu na extrativa mineral, de 1,1%. Já a indústria de transformação recuou 0,3% – no sexto trimestre seguido de contração. Construção recuou 1%, enquanto eletricidade e gás, esgoto e limpeza urbana cresceu 1,9%.

Ante o mesmo período de 2015, a indústria teve contração de 7,3% – a oitava seguida. A indústria de transformação caiu 10,5%, enquanto a extrativa mineral recuou 9,6%.

Sobre a queda de 9,6% da extrativa mineral, na comparação com o primeiro trimestre de 2015, o IBGE explicou que o desempenho “foi influenciado tanto pela queda da extração de minérios ferrosos como da extração de petróleo e gás natural”.

“A queda maior foi do minério, mas o peso maior é do petróleo. Nesse primeiro trimestre houve paradas de plataformas já programadas”, explicou Claudia Dionísio, coordenadora de contas trimestrais do IBGE.


PIB agropecuária-1tri16 (Foto: Arte/G1)

Agropecuária
Depois de mostrar recuperação no último trimestre de 2015, a agropecuária voltou a cair neste começo de ano, com uma contração de 0,3% frente aos três meses anteriores. Ante o primeiro trimestre de 2015, a queda foi mais acentuada, de 3,7%.

No acumulado em quatro trimestres, foi a primeira queda do setor desde 2012, recuando 1%.

“A soja, 60% da colheita anual é feita no primeiro trimestre, e é ela que tem maior peso na lavoura brasileira. No caso, ela até apresentou expectativa de crescimento no ano, segundo o LSPA [pesquisa do IBGE], mas a área colhida está crescendo menos do que a área plantada. Apesar da soja ter crescido no ano, houve perda de produtividade. De forma geral, a atividade climática colaborou para isso”, explicou Claudia Dionísio.


PIB serviços-1tri16 (Foto: Arte/G1)

Serviços
Os serviços tiveram queda de 0,2% frente aos três meses anteriores, puxados pela queda de 1% no comércio. Houve recuos importantes também de 0,8% em intermediação financeira e serviços e de 0,7% em serviços de informação. Transporte, armazenagem e correio teve contração de 0,4%.

Ante o mesmo período de 2015, o setor teve contração de 3,7%, com destaque para as quedas de 10,7% no comércio e de 7,4% em transporte, armazenagem e correio. Também tiveram resultados negativos as atividades de serviços de informação (-5%), outros serviços (-3,8%), intermediação financeira e seguros (-1,8%) e administração, saúde e educação pública (-0,8%).

“Caíram mais o comércio, tanto atacadista quanto varejista, transporte, principalmente o transporte de cargas, que puxaram mais. E serviço de transformação, que engloba telecomunicação, internet, agência de notícias, audiovisuais, e isso há um tempo tem esse comportamento porque estamos observando a substituição dos impressos pelos eletrônicos”, explicou Claudia Dionísio.


Comércio exterior
As vendas do Brasil ao exterior foram o ponto positivo dos dados divulgados nesta quarta-feira pelo IBGE. Frente aos três últimos meses de 2015, as exportações brasileiras cresceram 6,5%. Já a importação de bens e serviços – que contam negativamente no PIB – tiveram queda de 5,6%.

De acordo com a Claudia Dionísio, coordenadora de contas trimestrais do IBGE, o comportamento positivo da exportação que foi observado no quarto trimestre de 2015 continuou no primeiro trimestre de 2016.

PIB países - 1tri16 (Foto: Arte/G1)

“Exportação já vinha com contribuição positiva, mas nesse primeiro trimestre de 2016 aumentou. A desvalorização cambial favoreceu, e até atividade econômica interna mais fraca favorece na medida que parte da produção nacional acaba sendo enviada para fora”.

A queda de 21,7% da importação de bens e serviços, em relação ao primeiro trimestre do ano anterior, é a maior queda da série histórica, iniciada no trimestre de 1996, afirmou Claudia Dionísio.

“A gente explica com dois itens: desvalorização cambial, que teve um tombo de 37% no primeiro trimestre em relação ao primeiro trimestre de 2015. Se antes você comparava uma máquina por um valor, você está pagando agora 37% a mais por causa da valorização cambal. Tanto para investimento quanto para consumo. E no caso da exportação também, o produto brasileiro fica mais barato lá fora. E o segundo item é a demanda interna mais fraca”.

“A gente importou menos máquinas e tratores, siderurgia, veículos automotores, eletrônicos, extrativa mineral e serviços de transportes e viagens”.

De acordo com o IBGE, na contramão, o país exportou mais agropecuária (milho e soja), petróleo e derivados, metalurgia e veículos automotores.  “Como o volume da importação caiu bem maior, a maior contribuição positiva [no entanto] é pela queda da importação e não pelo aumento da exportação, mas também contribuiu”.

Assista no vídeo abaixo como é feita a divulgação do PIB no IBGE para os jornalistas:

Previsões pessimistas
O resultado do PIB dos primeiros meses deste ano mostra que o Brasil está no rumo de mais um ano de recessão. Um relatório divulgado mais cedo pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) estima que a situação econômica do país vai se deteriorar ainda mais este ano, com uma contração de 4,3% no PIB, seguida por uma nova queda, de 1,7%, em 2017.

Já os mercados financeiros preveem uma queda menos acentuada, de 3,81% na economia deste ano – a mesma esperada pelo governo, segundo o relatório de receitas e despesas do orçamento relativo ao segundo bimestre deste ano.

 
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